quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Entusiasmo acadêmico

Sinto ares de marasmo na academia. A academia segue o clima geral da cultura. O niilismo parece dominar a vida e ninguém mais crê em seus valores transcendentes, religiosos, políticos, intelectuais, artísticos, éticos, etc. Quando eu era mais jovem, no mundo dos adolescentes, ainda era possível encontrar pessoas que se dispunham a levar projetos adiante e acreditavam no que faziam. Foi assim que da pura vontade de duas ou três pessoas pudemos construir o Portal Sagas, que, afinal de contas, não era uma obra tão desprezível quando comparada à superficialidade dos feitos dos demais adolescentes. Atualmente, como jovem adulto, custa-me terrivelmente persuadir as pessoas de que vale a pena uma dedicação mais detida numa ou outra coisa, até uma conversa atenta é difícil viver.
A grande causa desse desentusiasmo difuso talvez se deva ao fato de que quase ninguém crê, nos dias de hoje, que seus feitos têm alguma excepcionalidade real. Somente os apetites irrefletidos parecem dotados de sentido, pois apresentam uma satisfação inquestionável e no exato momento em que se realizam. É uma realidade esperável de um período histórico em que a super excitação dos sentidos é do maior interesse para todas as finalidades sistêmicas e em que, portanto, a reflexão é detida pelas formas mais poderosas e/ou sutis da oferta. A ocupação constante do espírito em questões terrenas, a vontade de “ter experiências”, de acumular sensações de maneira meramente quantitativa, por si mesmas, só superficialmente mostra uma oposição entre a atual realidade sócio-psicológica no capitalismo tardio com a sumária e perspicaz observação de Marx acerca do movimento econômico-cultural do capitalismo em geral:
“Quanto menos comes, bebes, compras livros e vais ao teatro, pensas, amas, teorizas, cantas, sofres, praticas esporte, etc., mais economizas e mais cresce o teu capital. És menos, mas tens mais. Assim todas as paixões e atividades são tragadas pela cobiça.”
É o caso de uma adaptação para não deixar dúvidas sobre o elo oculto que liga a velha austeridade com o novo hedonismo:
“Quando menos dedica-se quando comes, bebes, compras livros e vais ao teatro, pensas, amas teorizas, cantas, sofres, praticas esporte, etc., mais cresce tua vaidade e mais satisfaz-se o capital. És menos, mas tens mais. Assim todas as paixões e atividades são tragadas pela cobiça e estupidez”
De resto, se é que devo recorrer a outro pensador clássico, lembro que as crenças pessoais tendem a perder força quando confrontadas com uma infinidade de opiniões divergentes (Durkheim). É uma situação em que uns valores não podem responder aos outros pelo simples fato de que todos estão aguados. Mas o problema é que a comunidade moral, a solidariedade, não está num estado de maior estabilidade do que no século XIX, não há mais coesão do que antes e o caos permanece. O consenso moral mostrou-se menos eficaz no desenvolvimento histórico do que o domínio burguês, que permanece um ponto de acordo tácito, inquestionável, diante da balbúrdia causada pelos opositores mais esganiçados e “heterogêneos” da pós-modernidade. Talvez seja o bastante para rever não só a percepção da “anomia”, mas também a crença na espontaneidade/naturalidade da divisão do trabalho e a crítica em relação à concepção materialista da história. É verdade que a SOCIEDADE tem suas regras próprias, mas também é verdade que os indivíduos e seus grupos lutam entre si e definem a história.
O que restou - para voltarmos ao nosso tema - de estímulo aos pensadores de hoje que perderam todas as “utopias” acerca de seu valor? Já não pensam poder influenciar a realidade, não acham que o poder sobre o mundo natural resulta em progresso e, inclusive, perderam a fé positivista da verdade de suas descobertas. E não é ainda pior o efeito dessa novidade no mundo periférico – Brasil - em que as crenças citadas nunca chegaram a se estabelecer com toda a força? Uma experiência simples basta para exemplificar a miséria da academia.
O caso é o do diálogo entre um prestigiado professor do departamento de filosofia e alguns de seus estudantes. O sujeito em questão decididamente é um bom orador e dos únicos filósofos não estritamente especialista que tenho visto, mas, ainda assim, a conversa comprovou que a divisão social do trabalho na vida hodierna já atingiu um determinado ponto em que as características de um “filósofo” e um “sábio” encontram-se absolutamente diferenciadas.
O professor em questão já havia demonstrado, em diversas ocasiões, seu machismo, elitismo e grosseria – isto apesar de sua aproximação à teoria crítica da sociedade (paradoxo não raro, mas suponho que a incoerência tem afinidade com a descrença). Ainda assim, seu talento acadêmico me estimulou a querer acompanhá-lo num almoço, depois de algumas horas de reunião num grupo de estudos. Um punhado de pupilos, sua namorada/aluna e uma professora/seguidora estavam presentes.
Os diálogos aborrecedores seguiram-se por incontáveis horas. Falaram de maneira grosseira e ranzinza sobre a estupidez dos cursos de idiomas, a suposta irrelevância da contribuição inglesa ao mundo do conhecimento, a idiotice do alardeado novo casamento real e, por fim, se divertiram de maneira extravagante zombando de um relativamente gentil professor de seu departamento, que não faz parte do séquito deles, mas a cereja do bolo é a causa principal da diversão: o fato do colega ser homossexual. Caricatamente, toda a inspiradora conversa, capitaneada pelo professor, transcorreu sem que praticamente nenhum deles sequer se desse ao trabalho de nos olhar nos olhos (os visitantes no grupo), apresentarem-se ou mesmo demonstrarem uma mínima preocupação com o modo como aquelas palavras soariam aos nossos ouvidos.
O melhor assunto, não obstante, foi o que se referia aos estudantes do curso. A tese do grupo é a de que o departamento de filosofia até hoje foi dominado pela idéia de que o pensador forma-se a si mesmo e que a erudição vale menos do que a criatividade, tal postura teria favorecido picaretagens e irresponsabilidades diversas por parte tanto de discentes quanto de docentes. A tarefa de mudar o destino histórico do curso foi assumida pelo grupo. E sua virulência na defesa e demonstração dessas pequenas verdades foi invejável. O protagonista chegou a confessar que perseguiu um desses alunos na seleção de mestrado e tentou reprová-lo até onde foi possível. Incomodava-o a arrogância de tal estudante. Ora, não passavam de um estudante, e a arrogância deve ser apanágio exclusivo dos professores!
É um fato incontestável que alguns dos geniozinhos desvairados aos quais ele se referia são incontroláveis faladores, incapazes de ouvir e insuportáveis de conviver. São a versão em farsa dos grandes gênios, exemplos extremos da incapacidade conjuntural de se alcançar o brilhantismo e que aparentemente pode levar a loucura. O mestrando citado é uma espécie de alter ego de Aguiar: troca a fúria homicida e suicida pelos barracos gélidos e matemáticos; a cara feia enraivecida pela “nudez combativa”; a solidão rabugenta pelas orgias militantes, etc. Mas este é uma excepcionalidade desagradável, os outros são arrogantes normais. Talvez o professor não possa suportar seu reflexo no espelho.
Quais seriam os substitutos para os monstrengos? Os farristas da faculdade? Ou apóstolos patetas, que estavam conosco na mesa e que com toda fala de seus profetas medíocres concordavam?