sábado, 16 de julho de 2011

O asceta e o aventureiro

Em minha última postagem, esbocei uma diferença entre o espírito moderno e pós-moderno, obviamente, aquele texto não esgotou em nada o problema e o terminei assim que bateu a vontade. De resto, meu pensamento sobre o problema ainda não está tão desenvolvido. Seja como for, agora resolvi escrever sobre os tipos humanos que melhor simbolizam essas diferentes condições (e/ou estilos), ou seja, de certa maneira, agora vou bater na mesma tecla por outro ângulo. Indo aos pouquinhos a reflexão amplia-se sem tornar-se chata.
Vale à pena recorrer a um dos exemplos que citei e não desenvolvi da última vez, o da “pós-modernidade política”. A aversão às “metanarrativas” atingiu fortemente o marxismo, como se sabe. O programa anticapitalista durante mais de um século foi quase consensualmente baseado numa idéia de projeto, confiança na racionalidade humana e luta pela hegemonia do sentido. A chamada nova esquerda, por outro lado, simpatiza mais com a fluidez, unicidade individual dos sentidos, afrouxamento das organizações e a flexibilidade das referências.
Não há dúvida de que alguns do melhores exemplos que poderíamos sacar para abordar a pós-modernidade política encontram-se no interior do feminismo moderno. Uma das idéias caras a este movimento costuma ser a do “lugar de fala”. Obviamente, tal categoria já estava implícita na perspectiva de muitos autores desde os tempos da modernidade triunfante (Marx e Nietzsche, por exemplo). A novidade, então, é a maior centralidade e dignidade que lhe foi dada por muitas teorias feministas atualmente. Já não crêem mais na capacidade do espírito humano de se por para fora de si mesmo, de suas condições objetivas de vida, e adotar uma posição livre de determinações.
Essa descrença na liberdade da consciência reflete-se na forma de agir. O recente movimento da “marcha das vadias” é um bom exemplo. O movimento, como todos sabem, nasceu a partir da estupidez da fala de um policial canadense, o qual lançou sobre as mulheres a responsabilidade de não serem estupradas não se “vestindo como vadias”. Daí nasceu uma luta internacional, que se materializou em passeatas por várias cidades do mundo e foi disseminada fundamentalmente através do facebook. As meninas se vestiam tal como “vadias” e protestavam. Tal movimento não tinha outra finalidade senão demonstrar a indignação das mulheres com tal situação e manifestar apoio.
O que caracteriza tal marcha como pós-moderna? É simples. Vemos, sem muito esforço, que não há exatamente algo que possamos caracterizar como um projeto, uma estratégia, por detrás dessa luta. A pergunta “no que isso vai dar?” carece de sentido e a apoteose da luta ocorre nela mesma. A luta é fluida e o inimigo é fluido, uma vez que não se pretende combater particularmente aquele policial ou aquele Estado. Também podemos observar que não se questionam ou escolhem os meios de possibilidade da luta. A informação, a referência, é tida como irrelevante, ou seja, pouco importa saber o porquê da revolta provir do Canadá (e pelo facebook) e não de qualquer outro dos milhares de casos ocorridos em países periféricos. Tudo isso é força e fraqueza, torna os movimentos perigosamente imprevisíveis e pouco ameaçadores - do ponto de vista dos poderes constituídos.
Mas qual o perfil psicológico por detrás de cada modo de agir? O pós-moderno, eu chamo aqui de aventureiro. É aquele que vive em cada momento, sem racionalizações excessivas sobre a totalidade (da própria vida ou do mundo), e sem a preocupação com a transcendência (ou seja, sem imaginar as figuras míticas da "coerência" ou “honra” como valores supremos). O pós-moderno é bem representado pelos nossos jovens, os quais se inscrevem com facilidade em todo o tipo de circunstância ou contexto, sem grande interesse na teleologia de suas próprias vidas. Há aí um certo empirismo.
Os valores do velho Deus vão sendo jogados na lixeira da história, sem grande culpa, e os novos valores do consumo e do hedonismo são aceitos sem críticas. Mas, se o hedonista é o mais conseqüente aventureiro, não é raro que alguns intermediários recaiam em dilemas morais insolúveis e dividam a vida em culpas e prazeres.
Os modernos, por sua vez, caracterizam por seu entusiasmo transcedental. Seu caráter irrita aos demais tanto por ser minoritário quanto pelo fato de parecer autoritário. O moderno é o extremo no sentido de atribuir coerência a tudo, de ser um asceta. Ele acredita tanto em suas categorias ao ponto de crer que nelas é que se encontra o valor do mundo. Ver um sentido para cada ação pode torná-lo um paranóico que se volta contra tudo o que fere a ordem mental por ele estabelecida. Ele é o idealista romântico, o introvertido travado, o intelectual sistemático, o religioso de fé, etc.
Num caso extremo, pode torna-se um louco anti-social. Não é raro observá-lo tanto acreditar em sua cosmovisão ao ponto de ignorar as arbitrariedades de seu próprio caráter, conferindo-lhes estatuto de racionais e óbvias. Tal inaptidão em ver o contexto e outras forças além de sua razão pode levá-lo a uma ingenuidade positivista, fazer vê-lo sua razão como simples reflexo da "razão cósmica" - uma simulitude insuspeita como o pós-moderno aparece aí: a incapacidade de se afirmar como sujeito, como transformador de sua realidade.
Outra patologia da personalidade moderna é o perfil moralista. Para estes, o mais importante é acalmar suas consciências rapidamente, em cada contexto, com respostas simples acerca do que é “certo” e do que é “errado”.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O pós e o moderno

Finalmente volto a escrever diretamente e de maneira descontraída para uma página minha. Tenho esperança de reaver o entusiasmo dos tempos de Portal Sagas e ter capacidade para criar um ambiente de conforto para a conversa sobre os temas mais diversos imagináveis.

É ainda uma oportunidade em que pretendo esclarecer uma diferença conceitual que há tempo me é cara e ainda mais o é agora, quando estou prestes a começar minha monografia. A questão é a seguinte: quais são as diferenças entre o espírito moderno e o espírito pós-moderno, o que os une e os separa, qual a contribuição humana esperável de cada um dos princípios.

Em primeiro, é necessário lidar com a desconcertante multiplicidade de definições, de bandeiras, que foram levantadas pelos pós-modernos. Eles se consideram desconstrutivistas, libertários, partidários da multiplicidade, reencantadores do mundo, não-dogmáticos, etc. Todos esses elementos derivam de sua ação iconoclasta: de sua aversão às grades narrativas, à arrogância racionalista e profética do iluminismo, ao "mito ocidental" do livre-arbítrio e à pretensão de domínio técnico e moral do “mundo das coisas” pelo cientista burguês moderno. Muitos se levantam contra a “ação racional visando a fins”, a razão instrumental, e defendem a volta ao mundo espontâneo da magia, pois toda a finalidade criada no Ocidente converteu-se na escravidão do próprio humano ocidental (e o ocidente já vai bem além dos centros da Europa e América).

De fato, a pós-modernidade diz respeito a tais eventos. Um olhar razoavelmente atento notará uma miraculosa mudança nas práticas culturais dentro dos mais diversos campos no último quartel do século XX e início desse novo século. Exemplos? A religião pentecostal, do rígido ascetismo de sua origem, transformou seus cultos em um misticismo desconcertante, em que a magia verdadeiramente assumiu o lugar da veneração; no campo da militância política, os movimentos organizados com estratégias bem definidas tornaram-se assumidamente contingentes, com demandas móveis e ação descontinuada; na academia, as “grandes narrativas” cederam espaço para as teorizações do local e do particular; e no campo da moral, os valores e metas relativizaram-se em detrimento de sua coerência orgânica de antes.

A coisa toda é desconcertante, nós a vemos em toda a parte e abruptamente, ao mesmo tempo, seus partidários se querem inclassificáveis, cada qual se diz único e defende uma auto-imagem particular. É uma sorte que Marx já nos tenha ensinado que é um equívoco tomar por verdade somente a representação que os sujeitos fazem de si mesmos e que a essência não é idêntica à aparência. Não tenhamos medo de dizer o que os pós-modernos nos parecem ser, a partir de um pequeno estudo genealógico sobre sua origem e considerando os aspectos culturais inovadores que eles nos trazem.

Antes, porém, temos que saber quem é o moderno.

O nosso arquétipo do moderno é dado pelo iluminista. O ser humano que fez a Revolução Francesa, a pessoa que lutou contra a tirania da tradição, o cientista que quis estabelecer as leis ahistóricas do mundo natural e social. O moderno é tributário de Descartes, que dá à Física o mundo da vida, mas retém sob o domínio do Espírito, a consciência. Nosso amigo é, sobretudo, um sujeito orgulhoso, um animado antropocêntrico. Ele herdou do cristão a fé na liberdade pessoal, mas tirou Deus do altar e se pôs em seu lugar. É também a imagem de Napoleão que nos ocorre, outorgando-se o título de imperador e rindo-se do poder simbólico do Papa.

Assim, temos que o princípio elementar do moderno é a consciência e a crença característica é a capacidade de fazer a própria sorte. Mas poderíamos tão facilmente esboçar a lógica e a característica pós-moderna, o pensamento de nossos contemporâneos?

Qual é a relação, por exemplo, que une as práticas mágicas da Igreja Universal e o modo de amar de nossa juventude? A comunidade da Universal crê no mesmo Jesus e no mesmo Deus de seus predecessores, no entanto, ao invés de cultuá-los seguindo a tradição transcendental protestante, reservam dias para cura de corpos, dias para melhora de relações afetivas, dias para potencialização das chances de sucesso material, etc. O “culto puro” é relegado as quartas e domingos, apenas. Seriam eles uma sobrevivência da rejeição ascética ao mundo da qual nos falava Weber, seria esta ilhota o reduto do velho espírito não-utilitário? Não. Os pastores justificam os dias de culto ao Espírito Santo como sendo o segredo para a intimidade com os céus e sucesso para com as outras demandas.

Tais protestantes tornaram-se “aceitadores do mundo”. Eles mesmos possuem boates, adaptam sua oferta espiritual à demanda musical do público, voltam seus cultos para o sucesso econômico e até, como observa F.C. Rolim, aceitam a existência da pornografia.

E no amor? Creio que todos, insatisfeitos ou empolgados, temos percebido que não se ama mais como antes. De um lado, não se é reprimido em suas fantasias, de outro, não se quer ter expectativas em excesso. É claro que os desejos são de toda ordem e dos mais variadas, no entanto, a expectativa é pequena no sentido de ter desistido da “felicidade total”, da “auto-expressão completa”, típicas do amor-romântico.

Mas aceitação da contingência no amor veio acompanhada da liberdade para amar. Quer dizer que a liberdade de expressão tem vínculo necessário com o amor pós-moderno? Não creio. Seria o mesmo dizer que as monarquias, do Antigo Regime ou constitucionais, têm a ver com o amor moderno.

Ora, desses dois pequenos exemplos, que nada esgotam, talvez possamos retirar alguma luz sobre a raíz do espírito pós-moderno. Parece-me que seu princípio é a descrença nessa consciência livre e transformadora; sua crença característica é a de que o destino escolhe sua própria trilha, estamos sem as rédeas, mas estamos encantados com o mundo, tal como nossos ancestrais.