Em minha última postagem, esbocei uma diferença entre o espírito moderno e pós-moderno, obviamente, aquele texto não esgotou em nada o problema e o terminei assim que bateu a vontade. De resto, meu pensamento sobre o problema ainda não está tão desenvolvido. Seja como for, agora resolvi escrever sobre os tipos humanos que melhor simbolizam essas diferentes condições (e/ou estilos), ou seja, de certa maneira, agora vou bater na mesma tecla por outro ângulo. Indo aos pouquinhos a reflexão amplia-se sem tornar-se chata.
Vale à pena recorrer a um dos exemplos que citei e não desenvolvi da última vez, o da “pós-modernidade política”. A aversão às “metanarrativas” atingiu fortemente o marxismo, como se sabe. O programa anticapitalista durante mais de um século foi quase consensualmente baseado numa idéia de projeto, confiança na racionalidade humana e luta pela hegemonia do sentido. A chamada nova esquerda, por outro lado, simpatiza mais com a fluidez, unicidade individual dos sentidos, afrouxamento das organizações e a flexibilidade das referências.
Não há dúvida de que alguns do melhores exemplos que poderíamos sacar para abordar a pós-modernidade política encontram-se no interior do feminismo moderno. Uma das idéias caras a este movimento costuma ser a do “lugar de fala”. Obviamente, tal categoria já estava implícita na perspectiva de muitos autores desde os tempos da modernidade triunfante (Marx e Nietzsche, por exemplo). A novidade, então, é a maior centralidade e dignidade que lhe foi dada por muitas teorias feministas atualmente. Já não crêem mais na capacidade do espírito humano de se por para fora de si mesmo, de suas condições objetivas de vida, e adotar uma posição livre de determinações.
Essa descrença na liberdade da consciência reflete-se na forma de agir. O recente movimento da “marcha das vadias” é um bom exemplo. O movimento, como todos sabem, nasceu a partir da estupidez da fala de um policial canadense, o qual lançou sobre as mulheres a responsabilidade de não serem estupradas não se “vestindo como vadias”. Daí nasceu uma luta internacional, que se materializou em passeatas por várias cidades do mundo e foi disseminada fundamentalmente através do facebook. As meninas se vestiam tal como “vadias” e protestavam. Tal movimento não tinha outra finalidade senão demonstrar a indignação das mulheres com tal situação e manifestar apoio.
O que caracteriza tal marcha como pós-moderna? É simples. Vemos, sem muito esforço, que não há exatamente algo que possamos caracterizar como um projeto, uma estratégia, por detrás dessa luta. A pergunta “no que isso vai dar?” carece de sentido e a apoteose da luta ocorre nela mesma. A luta é fluida e o inimigo é fluido, uma vez que não se pretende combater particularmente aquele policial ou aquele Estado. Também podemos observar que não se questionam ou escolhem os meios de possibilidade da luta. A informação, a referência, é tida como irrelevante, ou seja, pouco importa saber o porquê da revolta provir do Canadá (e pelo facebook) e não de qualquer outro dos milhares de casos ocorridos em países periféricos. Tudo isso é força e fraqueza, torna os movimentos perigosamente imprevisíveis e pouco ameaçadores - do ponto de vista dos poderes constituídos.
Mas qual o perfil psicológico por detrás de cada modo de agir? O pós-moderno, eu chamo aqui de aventureiro. É aquele que vive em cada momento, sem racionalizações excessivas sobre a totalidade (da própria vida ou do mundo), e sem a preocupação com a transcendência (ou seja, sem imaginar as figuras míticas da "coerência" ou “honra” como valores supremos). O pós-moderno é bem representado pelos nossos jovens, os quais se inscrevem com facilidade em todo o tipo de circunstância ou contexto, sem grande interesse na teleologia de suas próprias vidas. Há aí um certo empirismo.
Os valores do velho Deus vão sendo jogados na lixeira da história, sem grande culpa, e os novos valores do consumo e do hedonismo são aceitos sem críticas. Mas, se o hedonista é o mais conseqüente aventureiro, não é raro que alguns intermediários recaiam em dilemas morais insolúveis e dividam a vida em culpas e prazeres.
Os modernos, por sua vez, caracterizam por seu entusiasmo transcedental. Seu caráter irrita aos demais tanto por ser minoritário quanto pelo fato de parecer autoritário. O moderno é o extremo no sentido de atribuir coerência a tudo, de ser um asceta. Ele acredita tanto em suas categorias ao ponto de crer que nelas é que se encontra o valor do mundo. Ver um sentido para cada ação pode torná-lo um paranóico que se volta contra tudo o que fere a ordem mental por ele estabelecida. Ele é o idealista romântico, o introvertido travado, o intelectual sistemático, o religioso de fé, etc.
Num caso extremo, pode torna-se um louco anti-social. Não é raro observá-lo tanto acreditar em sua cosmovisão ao ponto de ignorar as arbitrariedades de seu próprio caráter, conferindo-lhes estatuto de racionais e óbvias. Tal inaptidão em ver o contexto e outras forças além de sua razão pode levá-lo a uma ingenuidade positivista, fazer vê-lo sua razão como simples reflexo da "razão cósmica" - uma simulitude insuspeita como o pós-moderno aparece aí: a incapacidade de se afirmar como sujeito, como transformador de sua realidade.
Outra patologia da personalidade moderna é o perfil moralista. Para estes, o mais importante é acalmar suas consciências rapidamente, em cada contexto, com respostas simples acerca do que é “certo” e do que é “errado”.
Vale à pena recorrer a um dos exemplos que citei e não desenvolvi da última vez, o da “pós-modernidade política”. A aversão às “metanarrativas” atingiu fortemente o marxismo, como se sabe. O programa anticapitalista durante mais de um século foi quase consensualmente baseado numa idéia de projeto, confiança na racionalidade humana e luta pela hegemonia do sentido. A chamada nova esquerda, por outro lado, simpatiza mais com a fluidez, unicidade individual dos sentidos, afrouxamento das organizações e a flexibilidade das referências.
Não há dúvida de que alguns do melhores exemplos que poderíamos sacar para abordar a pós-modernidade política encontram-se no interior do feminismo moderno. Uma das idéias caras a este movimento costuma ser a do “lugar de fala”. Obviamente, tal categoria já estava implícita na perspectiva de muitos autores desde os tempos da modernidade triunfante (Marx e Nietzsche, por exemplo). A novidade, então, é a maior centralidade e dignidade que lhe foi dada por muitas teorias feministas atualmente. Já não crêem mais na capacidade do espírito humano de se por para fora de si mesmo, de suas condições objetivas de vida, e adotar uma posição livre de determinações.
Essa descrença na liberdade da consciência reflete-se na forma de agir. O recente movimento da “marcha das vadias” é um bom exemplo. O movimento, como todos sabem, nasceu a partir da estupidez da fala de um policial canadense, o qual lançou sobre as mulheres a responsabilidade de não serem estupradas não se “vestindo como vadias”. Daí nasceu uma luta internacional, que se materializou em passeatas por várias cidades do mundo e foi disseminada fundamentalmente através do facebook. As meninas se vestiam tal como “vadias” e protestavam. Tal movimento não tinha outra finalidade senão demonstrar a indignação das mulheres com tal situação e manifestar apoio.
O que caracteriza tal marcha como pós-moderna? É simples. Vemos, sem muito esforço, que não há exatamente algo que possamos caracterizar como um projeto, uma estratégia, por detrás dessa luta. A pergunta “no que isso vai dar?” carece de sentido e a apoteose da luta ocorre nela mesma. A luta é fluida e o inimigo é fluido, uma vez que não se pretende combater particularmente aquele policial ou aquele Estado. Também podemos observar que não se questionam ou escolhem os meios de possibilidade da luta. A informação, a referência, é tida como irrelevante, ou seja, pouco importa saber o porquê da revolta provir do Canadá (e pelo facebook) e não de qualquer outro dos milhares de casos ocorridos em países periféricos. Tudo isso é força e fraqueza, torna os movimentos perigosamente imprevisíveis e pouco ameaçadores - do ponto de vista dos poderes constituídos.
Mas qual o perfil psicológico por detrás de cada modo de agir? O pós-moderno, eu chamo aqui de aventureiro. É aquele que vive em cada momento, sem racionalizações excessivas sobre a totalidade (da própria vida ou do mundo), e sem a preocupação com a transcendência (ou seja, sem imaginar as figuras míticas da "coerência" ou “honra” como valores supremos). O pós-moderno é bem representado pelos nossos jovens, os quais se inscrevem com facilidade em todo o tipo de circunstância ou contexto, sem grande interesse na teleologia de suas próprias vidas. Há aí um certo empirismo.
Os valores do velho Deus vão sendo jogados na lixeira da história, sem grande culpa, e os novos valores do consumo e do hedonismo são aceitos sem críticas. Mas, se o hedonista é o mais conseqüente aventureiro, não é raro que alguns intermediários recaiam em dilemas morais insolúveis e dividam a vida em culpas e prazeres.
Os modernos, por sua vez, caracterizam por seu entusiasmo transcedental. Seu caráter irrita aos demais tanto por ser minoritário quanto pelo fato de parecer autoritário. O moderno é o extremo no sentido de atribuir coerência a tudo, de ser um asceta. Ele acredita tanto em suas categorias ao ponto de crer que nelas é que se encontra o valor do mundo. Ver um sentido para cada ação pode torná-lo um paranóico que se volta contra tudo o que fere a ordem mental por ele estabelecida. Ele é o idealista romântico, o introvertido travado, o intelectual sistemático, o religioso de fé, etc.
Num caso extremo, pode torna-se um louco anti-social. Não é raro observá-lo tanto acreditar em sua cosmovisão ao ponto de ignorar as arbitrariedades de seu próprio caráter, conferindo-lhes estatuto de racionais e óbvias. Tal inaptidão em ver o contexto e outras forças além de sua razão pode levá-lo a uma ingenuidade positivista, fazer vê-lo sua razão como simples reflexo da "razão cósmica" - uma simulitude insuspeita como o pós-moderno aparece aí: a incapacidade de se afirmar como sujeito, como transformador de sua realidade.
Outra patologia da personalidade moderna é o perfil moralista. Para estes, o mais importante é acalmar suas consciências rapidamente, em cada contexto, com respostas simples acerca do que é “certo” e do que é “errado”.