terça-feira, 31 de maio de 2011

Pensamento Antigo Sobre o Problema da Liberdade

Para terminar o debate iniciado nas Notas Sobre o Marxismo, em especial na última Nota, resolvi publicar também um velho texto meu, dos meus primeiros tempos de UnB, sobre o problema da liberdade para um antigo, Demócrito de Abdera. Esse trabalhinho feito para a disciplina História da Filosofia Antiga demonstra que Necessidade x Liberdade já me preocupa há um bom tempo. Aí vai:


As relações do pensamento Eleata e Abderiano.

Demócrito nasceu em 460 a.C. e se estima que em 440 a.C já tivesse sido iniciado no atomismo, tendo sido afirmado pela tradição como o mais conhecido filósofo dessa escola. É conhecido como filósofo especialmente culto e que fez viagens científicas por várias partes do antigo mundo ocidental, como Egito e Pérsia. Nessas viagens, esgotou toda a fortuna que herdara e, conseqüentemente, parece ter vivido em dificuldades materiais severas. Era um homem com grande capacidade de estudo e bastante solitário.

Ele foi sucessor de Leucipo (...) A base filosófica de ambos é a escola Eleata, sendo que Leucipo foi discípulo direto de Zenão e Melisso (...) Suas teorias se caracterizam pelo mais rigoroso método científico, escapando de toda saída mítica e procurando descrever com clareza a totalidade da lógica do mundo.

Os pensamentos de Zenão e Melisso levavam a dicotomia Ser x Não-Ser a limites nos quais não era possível subsistir nenhum movimento real, pois supunham a inexistência do não-ser, ou seja, afirmavam que todo o universo é pleno de ser. Dessa forma, o ser é necessariamente uno e imóvel, pois, não havendo espaço vazio, não há algo que possa delimitar fronteiras entre o ser e nem há maneira de se realizar qualquer locomoção.

Leucipo e Demócrito negam essa concepção da realidade e afirmam a veracidade do movimento, do mundo dos fenômenos sensíveis. No entanto, o importante é que eles não negam o princípio de Parmênides de que o ser é pleno, ou seja, não contrariam a idéia básica de que nada no ser é não-ser, não obstante, admitem a existência do não-ser. No fragmento 156, Demócrito diz diretamente que “o nada existe tanto quanto o 'alguma coisa'”.

A chave que harmoniza a idéia da plenitude do ser com a existência do não-ser é justamente a do conceito de “átomo”. Os átomos seriam infinitas unidades do ser que estariam imersas no também infinito não-ser. O movimento é muito plausível diante dessa formulação, afinal, rarefação e condensação, crescimento e encolhimento, ir e vir, etc. podem ser compreendidos como a movimentação desses átomos através do espaço vazio.

O argumento de Melisso, segundo o qual a indiferença qualitativa do ser só pode ocorrer na condição de sua absoluta unidade, por não haver nenhuma igualdade na essência dos fenômenos sensíveis, é derrubado. Os atomistas sustentam a igualdade fundamental do ser consigo mesmo, mas reduzindo a escala de observação dos fenômenos, saindo do universo macroscópico e intelectualmente caminhando rumo ao mundo microscópico e abstrato, argumentam que em sua base o mundo é homogêneo e unicamente dividido entre o vazio e o pleno1, é apenas a falta de refinamento dos nossos órgãos sensoriais que nos faz captar diferenças secundárias, ao invés da unicidade do ser. Os vários seres, dessa forma, são realmente iguais ao ser único dos Eleatas.

A pluralidade dos fenômenos, por essa ótica, é tão-somente resultado das múltiplas formas, ordenamentos e quantidades que o ser assume. Cada átomo possui forma diferenciada e se liga a outros átomos em ordens e quantidades das mais diversas, contudo isso ocorre sem que entre eles haja qualquer diferença qualitativa, sem que suas natureza divirja essencialmente da de qualquer outro. O que vemos, sentimos ou ouvimos como diferente não é prova de uma multiplicidade do ser, porém simples captação de mudanças superficiais e quantitativas. Agora até o "erro" da percepção estava explicado!

O que primeiro se destaca nesse sistema explicativo é seu exemplar mecanicismo no qual podemos nos isentar de qualquer recurso ao mundo mágico ou fábulas. Todo o cosmo se explica de maneira natural e através da rigorosa causalidade. Os átomos são impenetráveis – pelo motivo do ser ser completamente pleno – e dos seus choques resultam encontros e desencontros que fisicamente dão explicação para todos os fenômenos, assim não há lugar para qualquer intencionalidade interna ou externa ao mundo, as coisas se dão da maneira com inevitavelmente haveria de ocorrer e o “acaso” do destino é simples aparência inicial.

Outra especificidade que não se pode esquecer nesse sistema é o aparecimento, pela primeira vez, da idéia da individualidade do ser. Só aí que se concebe o ser como uma unidade distintamente separada do mundo. Nos termos de Hegel, é quando surge a concepção do ser-para-si, o ser que se afirma na negação da negação, ou seja, o ser que afirma sua existência em contraposição ao nada. Quando se diz que um átomo é um ser, se diz que ele não é todo o restante das coisas, assim o átomo de Demócrito é o inverso do não-ser, é qualitativamente diferente daquilo que é sua negação e, por essa razão, adquire coloração individual diante do Todo.

Essa afirmação da individualidade do ser que se faz diante da distinção em relação ao que não se é, só pode ser alcançada por Demócrito através da herança da filosofia Eleata. Com Parmênides, o pensamento se concentrou completamente na questão do ser, posteriormente, com Melisso, se reduz ao absurdo a idéia da multiplicidade do ser e da existência do não-ser. Mas é só se baseando nessas características do ser que os abderianos(Leucipo e Demócrito) poderão de alguma maneira prosseguir com o pensamento até a vital afirmação da existência do não-ser, que dá origem à individualidade do próprio ser.

1Sendo completamente plenos e indivisíveis, afirma J. Burnet, os átomos de Demócrito podem ser análogos ao ser de Parmênides, o qual era uma esfera em que não havia não-ser. Ambos são eternos em si mesmos. A diferença é que, para os atomistas, fora desse eterno, há vazio e há infinitos outros seres igualmente plenos e eternos.